Claudinês Lopes, de 32 anos, cresceu ouvindo a avó Antônia contar sobre a injustiça sofrida. A matriarca, nascida na comunidade quilombola do Machadinho em Paracatu (MG), faleceu aos 99 anos sem receber a reparação que tanto esperava após ser expulsa de suas terras pela multinacional canadense Kinross Gold Corporation. Hoje, Claudinês é presidente da associação de moradores e lidera a luta por justiça para as famílias que perderam o território quando a empresa instalou a mina de ouro e prata Morro do Ouro na região.
Na última semana, o procurador regional da República José Adércio Leite Sampaio visitou Paracatu para negociar um acordo de reparação com a multinacional. A ação beneficiaria aproximadamente 1,3 mil famílias das comunidades quilombolas do Machadinho, Amaros e São Domingos. As negociações buscam reconhecimento oficial das comunidades, garantia de direitos territoriais e definição de critérios para indenizações e reassentamentos. O valor estimado varia entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão. O procurador destacou que o Ministério Público Federal está empenhado em “construir uma solução que resgate a dignidade e garanta a reparação integral” aos prejudicados. Um julgamento realizado em agosto teve dois votos contra as indenizações, mas a votação foi suspensa por 60 dias na expectativa de um acordo até novembro.
Os danos causados às comunidades vão além da perda territorial. Avaliações técnicas do MPF detectaram níveis elevados de arsênio na urina de moradores e no ar próximo à mina. A poeira das operações atinge as casas e causa problemas respiratórios. A empresa já acumula 1,2 bilhão de metros cúbicos de rejeitos em suas barragens—volume 100 vezes maior que o da barragem que se rompeu em Brumadinho em 2019. Muitas famílias vivem espalhadas pela cidade e municípios vizinhos em situação de vulnerabilidade, tendo perdido o modo de vida tradicional baseado na agricultura e garimpo artesanal. As comunidades do Machadinho e Amaros foram certificadas pela Fundação Cultural Palmares em 2004, e o Incra iniciou processos de regularização que foram interrompidos pela ocupação da empresa.
Com informações da Agência Brasil.


