Allyne Andrade, diretora executiva do Fundo Brasil desde maio deste ano, defende que os recursos de filantropia cheguem efetivamente aos povos e comunidades tradicionais brasileiros. Em entrevista exclusiva, a advogada e doutora em Teoria Crítica, com trajetória no movimento social antirracista, avalia a readequação das iniciativas de defesa de direitos humanos em um contexto de crises globais.
Segundo Andrade, embora as negociações internacionais sobre mudanças climáticas discutam financiamento de soluções e adaptação, esses recursos não chegam até quem mais sofre os efeitos da crise climática: as populações das periferias e das comunidades tradicionais. “Essas pessoas estão mais próximas do território, sofrem os efeitos da crise climática mas também são aquelas que mantêm os territórios mais preservados dentro do Brasil”, afirma a diretora. Para preencher essa lacuna, o Fundo Brasil criou em 2023 o programa Raízes, linha específica de justiça climática que direciona apoio financeiro a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais através de editais públicos e respostas emergenciais de proteção a lideranças ameaçadas.
Ao longo de 20 anos, o Fundo Brasil — fundação independente criada por ativistas como Abdias do Nascimento, Margarida Genevois, Rose Muraro e Dom Pedro Casaldáliga — doou R$ 141 milhões a 2,5 mil iniciativas. Em 2025, foram repassados R$ 32 milhões à sociedade civil organizada, aumento de quase 20% em relação a 2024. O programa Raízes já direcionou mais de R$ 6 milhões desde 2023. Além da justiça climática, a instituição atua em linhas de combate ao racismo, defesa de direitos digitais, trabalho digno, violência de gênero e justiça criminal.
Allyne Andrade ressalta que a expectativa para os próximos anos é aproximar-se ainda mais dos movimentos sociais e repensam os direitos humanos a partir da perspectiva de povos e comunidades tradicionais, com enfoque decolonial e antirracista. A fundação planeja realizar uma conferência em 2026 para reunir ativistas, movimentos sociais, pesquisadores e iniciativa privada, buscando construir coletivamente os caminhos da filantropia e dos direitos humanos para os próximos 20 anos.
Com informações da Agência Brasil.


