Alunos de uma escola pública de Cascavel, no interior do Ceará, desenvolveram um biomaterial inovador capaz de regenerar pele e tratar água contaminada. O projeto CellScale utiliza escamas de peixe e resíduos de cana-de-açúcar e garantiu vaga na final da Mostratec, a maior feira de ciências e tecnologia da América Latina.
Os estudantes Ana Clara e Carlos Vinícius, da Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEMTI) Marconi Coelho Reis, agora buscam apoio financeiro para viajar ao Rio Grande do Sul, onde acontece a etapa final do evento no fim deste mês. A equipe criou vaquinha e rifas para custear passagens, hospedagem e alimentação.
“Como somos estudantes de escola pública, esses custos são muito altos para as nossas famílias”, explica João Pedro Monteiro Silva, de 18 anos, monitor de laboratório e mentor da pesquisa. Os alunos são orientados pelos professores Guilherme Maciel e Francisco Augusto.
Da realidade local à inovação científica
A inspiração para o CellScale veio da própria vivência em Cascavel. Os estudantes observaram dois problemas graves na região: o descarte inadequado de resíduos nas feiras locais, onde escamas de peixe são jogadas nas ruas e esgotos, e a contaminação de açudes por óleos e corantes.
O Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo, gerando mais de 160 milhões de toneladas de bagaço por ano. Na cadeia do pescado, entre 60% e 70% do peso vira resíduo, totalizando mais de 400 mil toneladas descartadas anualmente no país.
Com orientação dos professores, os jovens desenvolveram no laboratório da escola um scaffold – uma matriz tridimensional e porosa feita com biocelulose cultivada do resíduo da cana, integrada com hidroxiapatita extraída das escamas de peixe. O projeto recebeu apoio da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Embrapa para análises.
Leia mais: fique por dentro das últimas notícias do Ceará, Brasil e do Mundo
Biomaterial sustentável e multifuncional
O resultado é um biomaterial 100% sustentável, biodegradável, de baixo custo e com diversas aplicações. Na área biomédica, tem potencial para regeneração tecidual, curativos e regeneração óssea, graças à biocompatibilidade e estrutura porosa rica em minerais.
Na área ambiental, os testes de laboratório apresentaram resultados impressionantes: remoção de 100% do corante têxtil Azul de Metileno, eliminação total de óleo mineral contaminante, redução superior a 99,7% da cor aparente e 98,04% da turbidez da água. O material pode ser reutilizado por até 10 ciclos de filtragem, com custo estimado de apenas R$ 0,02 por aplicação.
Esta não é a primeira conquista da EEMTI Marconi Coelho Reis. A escola já participou quatro vezes consecutivas da Regeneron Isef, considerada a maior feira de ciências e engenharia do mundo, conquistando neste ano primeiro e quarto lugares em diferentes categorias. “É um orgulho enorme para nós, jovens do interior do Ceará, mostrar que, com criatividade e dedicação, é possível transformar lixo em inovação tecnológica de nível internacional”, celebra João Pedro.






