Com o ingresso nas mãos e os olhos marejados, Ivone do Santos, 57 anos, subiu ao palco do tradicional Teatro de Santa Isabel no Recife para assistir ao filho Isaías Tavares, 33, violista principal da Orquestra Sinfônica de Goiânia, em concerto comemorativo dos 20 anos da Orquestra Criança Cidadã. A emoção da mãe reflete uma trajetória marcada por superação: a família perdeu tudo em uma tempestade em 2009, quando moravam no bairro do Coque, uma das áreas mais violentas da capital pernambucana. O projeto social, criado em 25 de julho de 2004, transformou a vida de Isaías e tantos outros jovens ao oferecer não apenas formação musical, mas também três refeições diárias, acolhimento e esperança.
Aos 14 anos, Isaías ingressou na orquestra e descobriu um mundo além do papelão e galho de goiabeira que usava para simular a viola em casa. Sua dedicação o levou a estudar no conservatório de Salzburgo, na Áustria, e a conquistar aprovação em primeiro lugar no concurso da Orquestra Sinfônica de Goiânia, assim como dois colegas que também se tornaram referência internacional. Um deles é o contrabaixista Antonino Tertuliano, hoje único latino-americano entre os 100 integrantes da Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. As histórias se repetem em outras turmas: a violoncelista Herlane da Silva realiza doutorado em Houston enquanto pesquisa a importância de projetos sociais latino-americanos na formação de músicos.
O projeto não se limita à comunidade urbana do Coque. Em Igarassu, a cerca de 30 quilômetros do Recife, 40 crianças filhas de agricultores trocam a lida no campo por instrumentos musicais e já conquistaram aprovações em universidades federais. José Felipe da Silva, 20 anos, contrabaixista, e Mirallayne Gomes, 19, violoncelista, são exemplos de como a iniciativa abre horizontes para populações historicamente marginalizadas. Ambos ingressaram na Universidade Federal de Pernambuco e agora servem como inspiração para outras crianças da região. O diretor e criador do projeto, o juiz de direito João Targino, reafirma que o objetivo primeiro não é apenas formar músicos, mas cidadãos conscientes e transformadores.
Com informações da Agência Brasil.




