Quase um terço das escolas cearenses enfrenta problemas com a qualidade da internet. Levantamento do Painel Escolas Conectadas revela que 1.839 unidades de ensino no estado — 30,8% do total de 5.977 analisadas — operam com velocidade de conexão considerada inadequada para as atividades pedagógicas.
A rede municipal é a mais afetada, concentrando 1.291 escolas com internet insuficiente, o que representa 70,2% do total. Na rede estadual, são 545 unidades (29,6%), enquanto a rede federal registra três escolas nessa condição (0,2%).
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O que significa internet inadequada
A classificação não indica necessariamente ausência de conexão, mas sim qualidade insuficiente para uso educacional. A Estratégia Nacional Escolas Conectadas (Enec) utiliza o Indicador Escolas Conectadas (Inec), que varia do Nível 0 ao Nível 5, avaliando velocidade, infraestrutura e cobertura Wi-Fi.
No Ceará, apenas 3.093 escolas alcançaram o Nível 5, considerado ideal. Outras 1.883 estão no Nível 2, com velocidade e Wi-Fi inadequados. Há ainda 956 unidades no Nível 4, 22 no Nível 1, 19 no Nível 3 e quatro escolas no Nível 0, sem conexão ou energia adequada.
Desafio maior nas áreas rurais
José Oliveira da Silva Júnior, vice-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), destaca que muitas localidades não possuem cobertura de operadoras. “Por mais que o município tenha interesse e recurso para contratar, não tem operadora que chegue naquela localidade”, afirma.
As escolas rurais enfrentam os maiores obstáculos. Segundo o dirigente, apesar de a Anatel ter política específica para atendimento desses estabelecimentos, a infraestrutura ainda não chega adequadamente a essas regiões.
A Secretaria Estadual da Educação (Seduc) informou que realiza tratativas para melhorar a internet nas escolas, mas não detalhou investimentos. Segundo a pasta, todas as 788 escolas estaduais estão conectadas pelo Cinturão Digital do Ceará, com mais de 98% contando com rede Wi-Fi de alta densidade.
Impacto no aprendizado
Igor de Moraes Paim, doutor em Educação e diretor do Centro de Referência em EaD do IFCE, explica que a instabilidade compromete a experiência pedagógica. “Quando a plataforma não abre, quando um vídeo trava, a tendência é interromper e abandonar a atividade”, diz.
O especialista ressalta que a internet amplia possibilidades educacionais, como visitas virtuais a museus e laboratórios digitais. A conexão inadequada também sobrecarrega professores, que muitas vezes precisam usar internet própria para preparar aulas e atividades.
Necessidade de investimento contínuo
O vice-presidente da Undime defende que os programas federais não se limitem à instalação inicial. “Se houver apenas investimento inicial, dificilmente a escola vai conseguir manter a estrutura depois de alguns anos”, alerta Silva Júnior.
Paim propõe divisão de responsabilidades: a União garantindo financiamento e padrões técnicos; os estados oferecendo suporte e licitações conjuntas; e os municípios cuidando do diagnóstico e manutenção local. As redes municipais, mais capilarizadas e com orçamentos menores, enfrentam desafios adicionais em comparação à rede estadual, que possui maior capacidade de padronização e economia de escala.






