A Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) acusa o Estado do Marrocos de ser responsável pela onda migratória que levou mais de 50 mil pessoas a tentar alcançar Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis na África. Quase 100 migrantes morreram na travessia, segundo dados do governo de Ceuta. Para a organização, o fenômeno reflete “uma profunda crise estrutural” resultante de décadas de marginalização social e econômica, transformando o desejo de emigração em símbolo de protesto contra o fracasso das políticas públicas, especialmente entre jovens. A AMDH destaca que a falta de perspectivas gerou um sentimento coletivo de “desespero e frustração”, convertendo anseios individuais em identidade de toda uma geração.
A entidade critica ainda a desigualdade extrema no país, a economia rentista baseada em corrupção e autoritarismo, além de questionar o “silêncio suspeito” das instituições estatais marroquinas. A organização condenou também o possível uso político da crise migratória como moeda de troca com a Europa, alertando que pessoas não devem ser exploradas em “jogos diplomáticos” em detrimento de seus direitos fundamentais. Mohammed Nadir, professor de Relações Internacionais da UFABC, aponta que embora Marrocos tenha avançado em infraestruturas e desenvolvimento econômico, essas melhorias não atingiram a maioria da população jovem, que enfrenta aumento do custo de vida, falta de empregos e dificuldades no acesso à saúde pública.
O rei Mohammed VI, em comunicado no 27º aniversário de seu reinado, ressaltou as conquistas nacionais: crescimento do PIB em 4,9% em 2025, liderança africana na indústria automóvel com produção de 1 milhão de veículos anuais, e índice de desenvolvimento humano de 0,71 (120º entre 193 países). Porém, especialistas alertam que o desemprego entre jovens de 15 a 24 anos atingia 24,9% em 2022. Enquanto isso, a AMDH condena a retórica de extrema-direita europeia que culpabiliza imigrantes, retratando-os como ameaça existencial às sociedades ocidentais, reafirmando que a migração em massa é expressão do fracasso estatal marroquino em criar oportunidades para sua população.
Com informações da Agência Brasil.


