A relação histórica entre Estados Unidos e Israel enfrenta seu maior desgaste político em décadas. A derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato do presidente Donald Trump expôs a fragilidade de uma aliança que, por gerações, foi sustentada por consenso bipartidário em Washington. O vice-presidente JD Vance admitiu publicamente que a questão israelense foi um dos quatro principais fatores que levaram os democratas a conquistar as maiorias na Câmara e no Senado.
Desde a fundação de Israel em 1947, os EUA repassaram mais de US$ 300 bilhões ao país, sendo US$ 224 bilhões destinados especificamente a assistência militar — mais que o dobro do segundo colocado, Afeganistão. No governo de Donald Trump (2016-2020), essa ajuda se expandiu agressivamente. No entanto, a guerra na Faixa de Gaza, classificada por especialistas como genocídio, transformou essa política externa em alvo de críticas internas nos EUA. Manifestações estudantis em universidades americanas e a eleição de Abdul El-Sayed, primeiro senador muçulmano, que fez campanha contra os gastos militares com Israel, sinalizaram uma mudança profunda no eleitorado americano.
Especialistas apontam que o apoio a Israel deixou de ser um consenso bipartidário para se tornar divisor de águas geracional e ideológico. A Casa Branca reconheceu esse custo político ao anunciar, surpreendentemente, o fim da ajuda militar estimada em US$ 3,8 bilhões anuais. Conforme Bruno Huberman, coordenador do Observatório de Conflitos do Oriente Médio da PUC-SP, essa decisão marca uma mudança relevante nas relações bilaterais entre Washington e Tel Aviv. Danny Zahreddine, especialista em conflitos do Oriente Médio, afirma que “a relação dos EUA com Israel traz hoje para o público americano um desconforto” que começou a se intensificar com a situação em Gaza.
Israel reconheceu a existência de um “sentimento anti-Israel” nos EUA, enquanto seu representante na ONU rejeitou as críticas, argumentando que é fácil culpar o país por questões complexas. A eleição também aprovou medidas municipais contra investimentos em países acusados de práticas como limpeza étnica e ocupação militar. Para analistas, a principal lição é que a política externa americana agora é cobrada nas urnas, sinalizando transformações profundas na forma como americanos avaliam alianças internacionais.
Com informações da Agência Brasil.


