Cultura

Eliana Alves Cruz denuncia: Jabuti levou 68 anos para reconhecer primeira mulher negra na categoria Romance

A escritora questiona a ausência histórica de autoras negras no prêmio literário mais importante do Brasil, destacando nomes como Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo. Com dois Jabutis conquistados, Eliana reflete sobre as barreiras enfrentadas por escritores negros na carreira literária.

A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz conquistou seu segundo Prêmio Jabuti em 2026 com o romance Meridiana, consolidando sua trajetória no universo literário brasileiro. Mas, ao contrário de celebrar apenas a vitória pessoal, ela prefere questionar um incômodo fato: levou 68 edições da premiação para que uma mulher negra ganhasse na categoria Romance — um marco que deveria gerar mais preocupação do que alarde.

Eliana aponta para nomes consagrados que mereceriam ter recebido o reconhecimento décadas antes. “Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves… tantas escritoras e tantos romances poderiam ter subido àquele palco”, critica. Sua reflexão vai além da competição entre autores: ela expõe como a sociedade brasileira naturalizou a ausência de vozes negras nas principais premiações literárias, ao ponto de transformar uma conquista justa em algo que parece extraordinário. A trajetória de Eliana começou aos 11 anos, quando um diário registrava seu sonho de ser escritora. Porém, as crenças limitantes — de que ninguém vive de escrita no Brasil — a levaram a trabalhar como jornalista por mais de 20 anos. Apenas após adoecer com burnout, em 2009, ela se dedicou à pesquisa que resultaria em Água de Barrela, um relato familiar que narra a saga de seus antepassados escravizados. O livro venceu o Prêmio Literário Oliveira Silveira em 2015, abrindo as portas para uma carreira consolidada em obras que investigam a vida negra no Brasil sob diferentes perspectivas e períodos históricos.

Além dos Jabutis (2022 em Contos e 2026 em Romance), Eliana também recebeu o Prêmio Guimarães Rosa da Academia Brasileira de Letras. Sua mensagem aos jovens escritores negros é direta: não desistam, estudem, leiam e escrevam — quebrem as próprias resistências. Para ela, a primeira barreira não vem de fora, mas do medo que cada um carrega. Atualmente, a autora aguarda a volta do programa Trilha de Letras na TV Brasil e será empossada na Academia Carioca de Letras em 17 de novembro.

Com informações da Agência Brasil.

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