O acordo de cooperação nuclear anunciado pelos Estados Unidos e Arábia Saudita expõe uma contradição fundamental na política externa da Casa Branca. O governo Trump fechou a parceria, que deve durar décadas e movimentar bilhões de dólares, permitindo que a monarquia saudita enriqueça urânio, ainda que alegue fins pacíficos. A incoerência fica evidente quando contrastada com a posição agressiva de Washington contra o Irã, exigindo o fim do enriquecimento iraniano de urânio, apesar de Teerã sustentar que seu programa não tem objetivos militares.
Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o acordo representa um reconhecimento da perda de confiança de Riade em relação à proteção oferecida pelos EUA. O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, da UFRJ, avalia que a medida busca reverter essa desconfiança após confrontos militares na região. Porém, organizações que combatem a proliferação nuclear alertam: a Arábia Saudita recusa-se a assinar um protocolo adicional com a Agência de Energia Atômica que permitiria inspeções-surpresa. Em 2018, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman afirmou publicamente que buscaria arma nuclear caso o Irã obtivesse acesso a uma.
O acordo também expõe duplo padrão americano. Enquanto a Arábia Saudita recebe direitos de enriquecimento para usinas ainda não construídas, a Coreia do Sul — que opera 26 reatores nucleares — teve seu pedido de parceria similar negado por Washington. Professor de Relações Internacionais da UnB, Roberto Goulart Menezes destaca que a medida envia sinais alarmantes para o Oriente Médio, aumentando incertezas regionais. As negociações entre EUA e Arábia Saudita ocorrem desde 2008, mas enfrentaram impasses até o segundo mandato de Trump, quando ganharam novo impulso. O acordo foi anunciado em meio à escalada de tensões no Oriente Médio e após ataques dos houthis contra navios sauditas.
Com informações da Agência Brasil.


