O Ceará se tornou alvo de grandes empresas de tecnologia interessadas em instalar data centers de hiperescala, estruturas voltadas para inteligência artificial, armazenamento de dados e computação em nuvem que exigem consumo massivo de energia elétrica.
Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o território cearense deve receber pelo menos seis projetos de data centers até 2035, com consumo previsto de 2,7 GW. O volume equivale ao gasto energético de 7,1 milhões de residências no estado, considerando consumo médio mensal de 274 kWh por casa.
O número pode ser ainda maior. A Zona de Processamento de Exportação do Ceará (ZPE Ceará) já aprovou 11 empreendimentos para instalação no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp).
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TikTok lidera projetos no Pecém
Entre os projetos mais avançados está o Data Center Pecém, que processará dados da ByteDance, dona do TikTok, e pode se tornar o maior do Brasil. A capacidade instalada chegará a 300 MW, com consumo superior ao de 99% das cidades brasileiras, segundo laudo do Ministério Público Federal. O empreendimento é desenvolvido pela Omnia.
Outro megaprojeto será anunciado em breve pela Tecto Data Centers, com investimento de R$ 350 bilhões. A Voltalia, empresa de energias renováveis, também recebeu autorização para construir um data center no Pecém, com garantia de 322 MW de potência e investimento de R$ 181 bilhões.
A Casa dos Ventos, que fornecerá energia renovável para o data center do TikTok, também pode erguer estrutura própria na região. A empresa cearense comprou direitos da Voltalia para 650 MW de acesso à rede elétrica.
Especialistas alertam para impactos ambientais
O pesquisador do IFCE Mauro Oliveira, doutor em Informática e mestre em Engenharia Elétrica, alerta para a necessidade de cautela. “No Ceará, temos energia sobrando, então isso pode ser um bom negócio. Só que precisa ser supervisionado, com transparência e métricas auditáveis”, afirma.
Uma das preocupações é o alto consumo de água para resfriamento dos equipamentos. O Data Center do TikTok recebeu aval para explorar poços que podem retirar 144 mil litros de água por dia, com consumo previsto de 19,7 mil litros diários.
“O data center não vai parar, a IA não tem volta. O que não podemos ter é um ‘entusiasmo de colonizado’. É preciso negociar contrapartidas”, defende Oliveira, citando reparação de impactos, atração de negócios e geração de empregos.
Sistema elétrico exige replanejamento
A demanda inédita dos data centers exigiu mudanças no sistema de transmissão. A Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão (PNAST), criada em dezembro de 2025, busca otimizar o acesso à Rede Básica do Sistema Interligado Nacional.
Segundo Igor Barreto Julião, pesquisador do Gesel/UFRJ, serão necessárias expansões na transmissão, incluindo nova subestação no Pecém e 1.848 quilômetros de linhas de transmissão em 500 kV, interligando Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí.
A EPE projeta que a expansão de cargas especiais — data centers, hidrogênio verde e veículos eletrificados — pode representar até 12,9% do consumo elétrico do Nordeste. O Ceará também lidera solicitações de hidrogênio verde, com 10 usinas que devem demandar 12,47 gigawatts.






