Cultura

Instalação ‘O Barco’ expõe as cicatrizes do tráfico transatlântico de escravizados

A obra da artista portuguesa Grada Kilomba chega ao Sesc Pompeia em São Paulo para denunciar os crimes do tráfico de africanos escravizados, considerado pela ONU como o maior crime contra a humanidade. A instalação com 134 blocos de madeira queimada reconstrói a silhueta dos porões dos navios negreiros e questiona a memória histórica apagada pela Europa e América Latina.

A obra ‘O Barco’, da artista portuguesa Grada Kilomba, abre suas portas ao público a partir desta terça-feira (22) no Sesc Pompeia, em São Paulo, para confrontar visitantes com as marcas do tráfico transatlântico de africanos escravizados. Reconhecido pela Assembleia Geral da ONU como o crime mais grave já praticado contra a humanidade, o sequestro e venda de milhões de africanos como mercadorias durante 400 anos deixou feridas ainda abertas. O Brasil foi o principal destino dessa diáspora forçada: mais de 4,8 milhões de pessoas escravizadas atravessaram o Oceano Atlântico em navios negreiros para trabalho forçado.

A instalação escultórica e performática é composta por 134 blocos de madeira queimada dispostos em 220 metros quadrados, recriando a silhueta do fundo de uma grande embarcação. Segundo Kilomba, a obra questiona “o que é essa glória” dos navios que aparecem em monumentos europeus e latino-americanos, revelando a violência que habitava os porões desses barcos. Dezoito blocos no centro da instalação trazem um poema gravado em dourado, traduzido para iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe sírio, com versos que ecoam: “Uma alma, uma memória. Uma memória, um esquecimento. Um esquecimento, uma ferida”.

Para a artista, o oceano representa um vasto cemitério de vidas perdidas não apenas na escravização e colonialismo, mas também nas guerras e migrações forçadas contemporâneas. “Múltiplos barcos atualmente continuam a atravessar as águas globais para fugir a genocídios, massacres, crises climáticas”, afirma Kilomba. A exposição no Sesc Pompeia, que permanece até 25 de outubro, também apresenta outras obras da artista: a videoinstalação “Opera to a Black Venus” e a instalação “Compressed Time”. A entrada é gratuita e marca a segunda parada da obra no Brasil, após passar 28 meses no Instituto Inhotim, em Minas Gerais.

Com informações da Agência Brasil.

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