Morando ao lado de um dos maiores polos de tecnologia do país, a Comunidade do Pilar, no Recife, representa um paradoxo brasileiro: inclusão digital pela metade. Ana Cláudia Miguel, líder comunitária, descreve a situação de forma contundente: “a gente mora no polo tecnológico, mas tem um déficit de tecnologia”. O muro que separava fisicamente a comunidade do Porto Digital foi derrubado há mais de 100 anos, mas a barreira agora é de bytes e oportunidades perdidas.
Pesquisa da PNAD-TIC 2026 do IBGE revela a realidade contraditória da inclusão digital brasileira. Enquanto 90,5% dos brasileiros acessam internet, a qualidade é profundamente desigual: 86% dos domicílios têm banda larga fixa e móvel simultânea, porém 10,7% dependem exclusivamente de dados móveis com franquias limitadas. Mais alarmante ainda: 59,2% dos domicílios não possuem computadores ou tablets. Eurídize Lima de Santana, 23 anos, moradora do Pilar, vivenciou essa exclusão na prática. Matriculada em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pelo programa Pilar Universitário, trancou a faculdade no terceiro semestre por não ter computador. Sem um notebook básico — que custa no mínimo R$ 3,5 mil — a jovem, que ganha salário mínimo, não conseguiu acompanhar as aulas práticas de codificação.
A advogada especialista em telecomunicações Flávia Lefrève alerta para violações do Marco Civil da Internet: as provedoras bloqueiam acesso quando a franquia acaba, impedindo cidadãos de acessar serviços públicos essenciais como Bolsa Família, Enem e imposto de renda. Dados mostram ainda que 95% dos usuários usam internet principalmente para redes sociais da Meta (Instagram, Facebook, WhatsApp), indicando quebra de neutralidade de rede. Em janeiro de 2023, a Coalizão de Direitos da Rede abriu processo administrativo questionando essas práticas junto à Secretaria Nacional do Consumidor.
Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, reconhece a dívida real com comunidades vizinhas: “há uma dívida real e uma forma ainda desorganizada de todos para agir com soluções”. Para Ana Cláudia, o custo da inclusão incompleta é dramático: “a gente está perdendo os jovens na comunidade”, inclusive para o mundo ilícito, quando faltam oportunidades de desenvolvimento tecnológico.


