Um cenário alarmante marca o período pré-eleitoral brasileiro. Entre outubro de 2024 e agosto de 2026, foram registrados 354 casos de violência política – na média de um a cada 44 horas – configurando o mais grave período da década. Os dados são de estudo divulgado nesta quarta-feira (30) pelas organizações Terra de Direitos e Justiça Global, que revelam uma ameaça concreta não apenas à vida de mandatários, mas à sustentabilidade das instituições democráticas.
A pesquisa expõe um padrão preocupante: mulheres foram vítimas de 50,6% dos episódios de violência política, apesar de ocuparem apenas 18% das cadeiras legislativas do país, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre elas, mulheres pretas correspondem a um em cada três casos. A violência simbólica – ameaças e ofensas – atingiu predominantemente mulheres (58,3%), enquanto ataques físicos vitimizaram homens em 77,2% dos casos. Casos de ameaças de violência sexual e comentários sobre corpo e aparência registraram 100% de vítimas mulheres. Gisele Barbieri, coordenadora de incidência política da Terra de Direitos, enfatiza que “a violência política contra as mulheres é sistêmica e evidencia quanto nosso sistema democrático impede o acesso feminino aos espaços de poder”.
Os vereadores constituem o maior alvo, representando 49,6% das vítimas identificadas – 176 dos 354 episódios. Pelo menos 63% dos casos ocorreram na política municipal, incluindo 24 dos 28 episódios com intenção de matar (10 assassinatos e 14 atentados). Policiais e agentes estatais aparecem como agressores em 29,9% dos casos, enquanto grupos criminosos também integram o cenário de violência. A pesquisa também registra que 18,1% dos agressores possuem mandato eletivo ou cargo público.
Apesar de 84,5% dos episódios terem recebido denúncia formal, apenas 13% contam com apuração judicial ou policial em curso e apenas 2,5% resultaram em punição efetiva. As coordenadoras da pesquisa alertam que a violência política compromete a participação plena de grupos como mulheres, pessoas negras, transexuais e LGBTQIAP+, inviabilizando uma democracia verdadeiramente representativa. A Lei 14.192, de 2021, prevê sanções contra violência política de gênero, mas sua aplicação permanece insuficiente.
Com informações da Agência Brasil.


